segunda-feira, 19 de julho de 2010


ACHO QUE ENVELHECI...


Dei pra chorar à toa, à mais remota lembrança do amolador da facas

(aquele da minha infância, e que tocava todas as canções de Dolores),

o meu pranto se desata...

Não posso ver cena de novela!

Se tem fundo musical, ai, então,

"vete de mi": é um chororô sem tramela...

Acho que envelheci...

qualquer lembrança é tão vaga...

e tão presente...

Mas, então, de onde vem, quando te vejo,

este fogo que me consome?

Os idiotas diriam que, numa senhora,

chega a ser indecente...

Segura a onda, coroa!

De fato, o corpo é este, vergado pela artrite...

Mas o coração, lépido, arteiro,

não respeita nenhum comando.

E ama... ama...

Quando eu penso em ti, rio à toa.

No outono da minha vida,

caminho lenta...

Mas a minha alma ainda voa.

quarta-feira, 7 de abril de 2010







Cristo, salvai o meu Rio de Janeiro!



Às vezes por orgulho, plenamente justificável, outras vezes somente para afrontar os mortos de inveja – esses que me julgam mal somente porque tenho o privilégio de ser carioca –, às vezes, quando alguém me questiona (Você é carioca, é?), eu respondo “Sim, modéstia à parte”!
Há, nessa frase muito mais do que ironia. Há, isso sim, uma prece, subliminar, de agradecimento a Olorum pelo fato de ter-me escolhido, entre milhares de outras criaturas, para nascer, crescer, viver e amar o Rio de Janeiro. E eu amo, sim, o meu Rio de Janeiro! E não apenas pela beleza, de dar nó no coração e na garganta dos passantes mais desatentos...
O Rio de Janeiro merece ser amado pela bravura de uma cidade que, desde que Dom João VI se foi, de volta para Portugal, nunca mais teve quem fizesse tanto por ela... Depois dele, veio o filho, que, além de cortejar todas as belas mulheres da Corte, pretendeu fazer a Independência no grito... Deu no que deu: até hoje, nada de independência de fato! Muito tempo depois, o Rio de Janeiro, perdeu o status de capital da República e, antes mesmo que se pudesse recompor (isso nunca aconteceu...), veio a fusão do Estado da Guanabara com o Estado do Rio de Janeiro. Somados e multiplicados os problemas, a cidade ficou ainda mais desamparada.
Antes dos temporais, choveu Brizolas e Garotinhos... Ou seriam Molequinhos? A contravenção do jogo do bicho, que, pelo menos, respeitava a ética, por mais estranha e fora de moda – de não viciar crianças e jovens –, deu lugar ao crime organizado a serviço do tráfico... da violência explícita.
E, agora, a ira das chuvas, ajudada pela conspiração, o desmazelo, a falta de capricho e de vergonha dos governantes. A natureza, de mal com a gente, com toda razão, aliás, parece não fazer questão alguma de entender o que Tom Jobim quis dizer, quando cantou “as águas de março fechando o verão”.
Já houve quem dissesse que “Deus fez o Rio de Janeiro e avisou: Agora, é com vocês”. E lá se foi, sem mais olhar para trás... Não acredito. Quero crer, preciso crer que Deus ainda vive por lá. Depois de criar a maravilha das maravilhas, por ela apaixonou-se... e não pôde mais ir embora. Lá está o Rendentor. Com certeza, Deus petrificado, disfarçado... pra evitar a fila de pedintes... Imagine se as pessoas percebem que Ele está ali, disponível, todo ouvidos!
Cristo, salvai o meu Rio de Janeiro!
O Rio de Janeiro merece ser protegido...

Amém!

sábado, 27 de março de 2010

Mãe-silêncio...




Onde é que você dorme agora?
Já não me bastava a morte de nascer?
Desde então, nunca mais, nos meus ouvidos,
o surdo que batia no seu peito...
Mãe, cadê você?
Mãe-silêncio...
Onde é que você está agora,
assim... tão quieta...
e tão definitivamente jovem e bela?
Por que será que foi embora?
Será que foi encontrar alguém,
no jardim da memória?
Será que viajou na estrela?
Mãe-silêncio...
Tantas são as coisas que ficaram por dizer...
e tantas outras por calar...
Onde é que você está agora?
Será que entrou no retrato?
ou na paisagem que você mesma pintou... aquela?
Mãe-silêncio...
Se você despertar, serei uma boa menina...
Se você acordar, eu prometo:
não digo mais palavrão,
paro de beber, chego cedo em casa,
passo, lavo, cozinho...
Mãe, a velhice vem vindo logo ali, na esquina...
e ainda nem aprendi a arte do seu crochê...
Mãe, volte aqui!
Acorde, mãe! Diga alguma coisa!
Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeê!

Memória da chuva*

Não sei de onde vem esta coisa que balança entre a inquietação e a alegria sem rótulo toda vez que chove... Uma coisa que se derrama aqui dentro. Que refresca e aquece... No peito e entre as pernas. Talvez brote da Oxum que dorme em mim... quem sabe? Talvez... Talvez a raiz esteja lá, plantada na lembrança cristalizada da menina que saltava as poças d’água, bolsos cheios de bolas de gude que cantavam a mais estranha canção, roçando-se umas nas outras. A água tépida da chuva sempre foi a coisa mais carinhosa que tocou minha pele, escorrendo em meus cabelos, emaranhados. Menina-novelo. Menina-meio-menino, mesmo sem cruzar, o arco-íris, o canhão de luz colorida que pintava as tardes lavadas pela tempestade no quintal da favela... e alimentava minha esperança de dias ainda mais luminosos. A chuva enxurrava humilhações e misérias... Que brilho tinha para mim a chuva, desenhando perfis medonhos na janela! Que fantásticos os diamantes que gotejavam... Antes, o aceno...
Não sei, não, meu amor, de onde vem, quando chove, esta vontade de me aninhar, de trepar até arder inteira e depois voar o vôo das amantes saciadas... Não sei... Não sei, meu amor, de onde vem, quando chove, a visão da vida e da morte, subitamente, fundidas no mesmo pedestal... Talvez me venha desta Oxum que dorme, desperta, ama, sorri e chora no lugar mais fundo de mim...
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* texto publicado na 39ª edição das Escritoras Suicidas (www.escritorassuicidas.com.br)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O ESPELHO DE PRÓSPERO*
Meus amores... segurei a onda até agora, vendo a maneira desdenhosa com a qual algumas pessoas se referem ao presidente Lula. Mas não dá mais... A gota d'água foi uma notinha preconceituosa, racista, abjeta que li nas Folhas... Não me posso mais calar. Ou eu não seria a LHC...
Não votei no Lula e, provavelmente, não votaria se ele se candidatasse outra vez. Mas não porque é o Lula... Na verdade, ainda não apareceu alguém que eu considere merecedor do meu voto para presidente da República. Em todos sempre sobra ou falta alguma coisa...
Nos últimos anos, só voto na Luiza Erundina. Mulher porreta! A única que passou pelo governo da maior cidade do pais sem enricar. Ainda hoje, mora no mesmo lugar e dirige o mesmo carrinho velho. O mesmo caráter. Mulher porreta!
Não votei no Lula porque ele não me inspirava a mais mínima confiança, cercado de vampiros, depois, aliás, apanhados com a boca em alguma jugular... José Dirceu era somente um deles...
Não votei no Lula talvez porque eu assisti ao primeiro comício que fez, no Campo de São Cristóvão, no meu Rio de Janeiro, quando o único defeito dele era o machismo (preferia dar entrevista às meninas...). Eu o entrevistei, em algumas greves... e, na campanha, já não reconhecia sequer a sombra daquele líder sindical impecável... Verniz demais... Como confiaria em alguém que mudou tanto?
Mas devo observar a sinceridade que caracteriza a jornalista que eu sou, a sinceridade que me faz, sempre, constatar e registrar o fato, nu a cru, sem distorções, apesar da minha convicção política.
Como cidadã e como jornalista, não dá para ser isenta, porque, simplesmente, eu não posso arrancar a minha própria pele... Mas devo ser honesta! E o que eu não posso negar é que o governo Lula não está sendo bom para mim. Eu estou necessariamente mais pobre do que era há dez anos. Mas Lula está sendo bom, sim, para a maioria pobre... Minha faxineira também só faz melhorar. Daqui a pouco, periga de ela me emprestar algum... Cantarola o dia inteiro... e gosta do Lula, pernambucano que nem ela.
Se há assistencialismo, paternalismo ou populismo isso já é outra coisa. Se a economia foi "artificialmente" inchada e vai murchar assim que o Lula virar as costas, isso nós vamos ver mais adiante (sinceramente, NÃO TORÇO PARA ISSO). Mas o que há para hoje, aqui, agora, é que os pobres ascenderam, sim, senhores! Que a nossa rejeição ao barbudão, inclusive porque preferimos o estilo refinado, não nos impeça de reconhecer a verdade dos fatos.
O poder de compra dos pobres deu um salto enorme. Melhor: a autoestima também... A esperança deu muitos saltos para cima. E, conforme dizia Ulisses Guimarães, "tire-se tudo do homem, menos a esperança"...
De repente, todos os "nordestinos mutilados" perceberam que, "se ele pôde, eu também hei de poder". De repente, todos os "seminanalfabetos" souberam, na prática, aquilo de que já suspeitavam: os homens de diploma, que não falam nóis vai, nóis vem, sabem Inglês, não tomam cachaça e não confessam que o povo está na merda, os elegantes, letrados não fizeram melhor... Não fizeram, simplesmente...
Mas, se os excluidos percebem isso, significa que se tornaram perigosos... Então, é preciso neutralizar a reação. Como? Desmoralizando o presidente -- o espelho de próspero. Aliás, ninguém faz isso melhor do que o brasileiro: falar mal de si mesmo, do país, do presidente, das coisas brasileiras. Do Lula, o mínimo que se diz é que é "burro"... Se a imagem projetada (do humilde) é boa, quebra-se o espelho... Mesmo sob pena de se ter sete anos de azar...
* Espelho de Próspero é o nome do livro no qual o historiador norte-americano, Richard Morse, à luz da História, identifica e analisa o que para ele, em nós, latino-americanos, seria uma tremenda crise de identidade. Nós não nos enxergamos uns nos outros...
LHC, a mulher-sigla
Se beber, não escreva. E nem leia!

sábado, 12 de dezembro de 2009

SEXTO SENTIDO











Os olhos, arranhados de tristeza
(tantas são as perdas...),
andam assim... meio baços...
Já nem sei mais, na enchente,
aonde me levam meus passos...

Os ouvidos cospem discursos vazios
e noticiários sobre corrupção, na TV...
Emprenhados, meus ouvidos cairam moucos...

Dinheiro roubado nas cuecas e meias,
leite infantil batizado com soda cáustica
e crianças atiradas pela janela...

O cheiro “deles” me azeda o olfato...

Nesta festa de tarados e loucos,
tateando, na solidão de mim mesma,
às vezes, balanço
entre o pesadelo e o fato...

O sabor de tudo é tão enganoso...

Mas minha alma, livre,
me leva aonde nem mais o coração alcança...
E eu insisto, insisto, insisto...
porque ainda me sobra um tanto assim de esperança!


A TODOS os amigos (e nem tanto) com o melhor do meu amor. Feliz Natal! Que 2010 seja um ano curto para as tantas e tão intensas alegrias!


LHC
dezembro de 2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009


Luiza Erundina, mulher porreta!


Ao contrário da maioria dos intelectuais de esquerda na minha idade – mortalmente atingidos pela amargura da revolução que não souberam fazer – não acredito que tudo esteja perdido... Não mesmo! O Brasil tem jeito, sim, senhores! É só a gente querer... e ter a coragem
de fazer o que tem de ser feito!Mas confesso que minha fé na justiça e no poder de discernimento do ser humano se estilhaça quando leio nos jornais que os mais diversos segmentos da sociedade paulistana estão-se mobilizando para ajudar a ex-prefeita Luiza Erundina a cumprir a condenação imposta pela 1ª Vara de fazenda Pública: pagar uma dívida de R$ 350 mil à Prefeitura.O que espanta não é, tão-somente, o exagero da pena. O que me incomoda é a forma como a dívida foi contraída: em março de 1989, quando ainda era apenas deputada, Erundina teria utilizado recursos públicos para pagar a veiculação na mídia de um comunicado que tratava da paralisação de ônibus, entre os dias 14 e 15 de março de 1989.O que me enlouquece não é apenas o fato de não caber mais recursos e, assim, ser esta a primeira e única condenação na longa e reta vida política da ex-deputada e ex-prefeita de São Paulo.O que me dói é verificar que o povo e a lei (não a Justiça), no Brasil de corruptos e ladrões, confessos e dissimulados, punem uma das pouquíssimas personalidades políticas que não engordaram a conta bancária ao passarem pelo governo da maior e mais importante cidade do País.
O que me tortura é certeza de que, no Brasil, bons antecedentes depõem contra...
O que me faz sangrar a alma-cidadã não é somente o fato de a Justiça (sic) ter acatado uma ação popular (Eta povinho equivocado!). A vontade popular que absolve e continua votando nesse escroto do Maluf é capaz de condenar logo a Erundina, única pessoa na qual desde sempre voto em total confiança, independentemente do partido no qual esteja (nunca fui PT e nem PSB). Luiza Erundina sempre mereceu e sempre merecerá o meu voto porque, mesmo atordoada diante do comunicado da condenação, tenho certeza de que em nenhum momento pensou que, se tivesse cedido à atávica vocação dos políticos brasileiros para a corrupção, o saque e o enriquecimento ilícito, talvez jamais tivesse sido questionada e, menos ainda, condenada. E, se fosse, teria de onde tirar esses R$ 350 mil... Luiza Erundina, do alto da mais plena dignidade, não se envergonha e nem se arrepende de nada. Ela faria tudo de novo! Do mesmo jeito! Luiza Erundina! Garra de sertaneja! Luiza Erundina! Mulher porreta!